Etapas para a Produção e Uso de Vermicomposto
A vermicompostagem é um método de compostagem eficaz e alternativo e pode ser feita em espaços muito pequenos. É uma tecnologia muito interessante e para obtenção do vermicomposto de qualidade a partir de resíduos orgânicos requer uma série de etapas:
Leia também a primeira parte do artigo Como Produzir Vermicomposto
Preparação do Substrato
- Colecta de resíduos orgânicos (restolhos de culturas, esterco de animais e restos de alimentos frescos);
- Corte os restolhos em partes mais finas para facilitar a sua decomposição através do aumento da área da superfície disponível para a acção microbiana e proporcionando melhor circulação do ar;
- Mistura de materiais cortados com o esterco num rácio de 7:3, isto é, 70 % restolhos/lixo e 30 % esterco animal como fonte de nitrogénio, e
- A montagem do material cortado é feita de forma alternada com o esterco até uma altura de 0,3 a 0,4 metros e um metro de largura.
Pré-compostagem
- Empilhamento de substrato numa cama medindo 1×5 metros ou mais, com uma altura de 0,4 metros. Adicionar água para aumentar a humidade (50 a 70 %). Garantir que a cama da vermicompostagem esteja num local sombreado, com acesso a água e protegido contra o sol e chuvas.
- O substrato, quando não tiver sido pré-compostado, geralmente aquece em 24 a 48 horas, o que marca o início do processo de pré-compostagem. Em 15 a 20 dias (dependendo do estado do material usado) a temperatura baixa, sendo considerado o momento certo para a inoculação das minhocas.
Inoculação das Minhocas
- Recomenda-se colocar de 1,0 kg a 1,2 kg de minhocas por metro quadrado da cama, o que equivale entre 1.000 a 1.500 minhocas. Após serem colocadas e espalhadas suavemente no topo da cama, as minhocas descem facilmente para o interior do substrato e procedem com a trituração do mesmo transformando-o em vermicomposto;
Cuidados e Manutenção da Cama
- Regar a cama regularmente para manter a humidade;
- Garantir a manutenção das condições ideais para o desenvolvimento das minhocas, isto é, pH neutro, humidade entre 70 a 85% e temperatura entre 15,7 a 23,2º C;
- Limpar a área ao redor regularmente e verificar a presença de inimigos naturais das minhocas como galinhas, pássaros, lagartos, sapos, formigas, besouros, etc. Para melhor
segurança, pode recorrer-se a redes para cercar o local de produção do vermicomposto.
Nota bem: Para que se obtenha um vermicompostode qualidade a cama preparada deve garantir os cinco itens básicos a saber:
- Ambiente apropriado para a sobrevivência das minhocas;
- Boa fonte de alimento;
- Humidade adequada;
- Boa circulação de ar; e
- Protecção contra temperaturas extremas.
Monitoria da Humidade e Colheita do Vermicomposto
- A colheita do vermicomposto pode ocorrer entre 40 a 60 dias após a inoculação das minhocas. Antes deve-se observar que 80 % do substrato inicialmente depositado foi decomposto e estabilizado. Através do teste das mãos, pode verificar-se se o vermicomposto está pronto para ser colhido;
- Prepara-se o novo substrato em outra(s) cama(s) onde serão colocadas as minhocas retiradas da(s) cama(s) a ser colhida(s). Em caso de não ter nova(s) cama(s), organiza-se um minhocário onde serão depositadas as minhocas em espera, enquanto se arruma o novo substrato na cama onde foi colhido o vermicomposto, e se reinicia o processo da vermicompostagem. Deve-se evitar deixar as minhocas separadas fora das camas ou dos minhocários por muito tempo;
- Cerca de uma semana antes de iniciar a colheita do vermicomposto deve-se suspender a rega para permitir a secagem ou diminuição da humidade na parte superior do substrato, fazendo com que as minhocas procurem refugiar-se na parte inferior que ainda preserva a humidade;
- Uma vez criadas as condições para a retirada cuidadosa das minhocas das camas, segue-se a fase da separação do vermicomposto, recorrendo-se às(aos) seguintes técnicas/métodos:
- catação manual: consiste na triagem manual ou colheita manual das minhocas directamente do vermicomposto. Este processo é lento e trabalhoso, mas permite a separação e classificação das minhocas por tamanho;
- uso de peneiras (manuais/mecânicas): consiste no uso de peneiras manuais ou mecânicas para proceder a separação das minhocas do vermicomposto. Recomenda-se que as peneiras tenham malhas de 4mm e o vermicomposto com uma humidade de 40%;
- uso de iscas: baseia-se na tendência das minhocas de migrar para novas regiões, seja para encontrar novos alimentos ou para evitar condições indesejáveis, como secura ou incidência directa de luz. Assim, coloca-se alimentos num canto da cama e as minhocas migrarão na direcção do alimento, deixando maior parte do vermicomposto livre e pronto para ser colhido;
- pulsos magnéticos: consiste em usar um aparelho eléctrico, constituído por um acumulador de energia, ligado a um fio eléctrico de 4 metros de comprimento, que é colocado na cama. Ao ser transportada pelo fio, a energia do acumulador provoca descargas eléctricas nas minhocas, repelindo-as de encontro às paredes. De seguida retira-se o vermicomposto num espaço equivalente a 4 metros. v. Em qualquer uma destas técnicas deve-se assegurar que o produto final seja fino e uniforme. As partículas que não forem devidamente decompostas e retidas no processo da separação devem ser devolvidas para uma nova cama e sujeitas a um novo processo da vermicompostagem.
Nota: O processo de colheita do vermicomposto deve ser feito nas horas mais frescas do dia, pois, as temperaturas elevadas são prejudiciais para as minhocas. Figura 9: Imagens ilustrativas das etapas de produção do vermicomposto:
Leia tambem a segunda parte do artigo Produção de Vermicomposto Pt 2
Pragas, Doenças e Predadores
As minhocas não estão sujeitas a doenças causadas por micro-organismos, mas podem sofrer predação de certos animais e insectos. Por outro lado, são susceptíveis ao “sour crop”, doença causada por condições ambientais. As pragas mais comuns são: toupeiras, aves, centopeias, formigas, ácaros, sanguessugas, lesmas e rãs.
Toupeiras
As minhocas são o alimento natural das toupeiras. Portanto, se uma toupeira tiver acesso ao leito das minhocas, em pouco tempo irão se perder muitas. Isso geralmente é um problema ao usar camas ou outros sistemas ao ar livre. A forma de prevenção das toupeiras consiste na colocação de barreiras, como por exemplo, tela de arrame, blocos ou tijolos, pavimentação ou uma boa camada de argila sobre a cama.
Aves
As aves não são um grande problema para as minhocas, mas se elas descobrem suas camas, elas aparecerão regularmente e se alimentarão das minhocas. A forma de prevenção consiste na colocação de cobertura (exemplo: capim, tapetes velhos ou outros materiais apropriados) sobre a cama. De recordar que esta cobertura também é útil para a retenção da humidade e evita a incidência directa das chuvas e do sol.
Centopeias
As centopeias alimentam-se de vermes de compostagem e seus casulos, elas não se multiplicam com facilidade dentro dos minhocários ou camas, por este facto os danos são geralmente leves. Quando elas ocorrem, o método de prevenção mais comummente aplicado é molhar fortemente (mas não inundar) as camas das minhocas.
A água força as centopeias e outras pragas de insectos (mas não os vermes) para a superfície, onde podem ser catadas e destruídas por meio de uma tocha de propano portátil ou algo semelhante. O mesmo método de prevenção e destruição das centopeias é aplicável para as lesmas.
Formigas
As formigas são mais problemáticas porque consomem o alimento destinado às minhocas. Um dos factores que atrai as formigas para os minhocários ou camas são alimentos contendo açúcar, portanto, se evitarmos alimentos doces nos minhocários ou camas, reduz-se o risco. Também pode–se reduzir o ataque de formigas mantendo pH da cama acima de 7.
Ácaros
Existem vários tipos de ácaros, mas apenas um tipo é problema para a vermicompostagem: os ácaros vermelhos. Os outros tipos de ácaros (brancos, etc..) competem com os vermes por comida e podem, portanto, ter algum impacto económico, mas os ácaros vermelhos são parasitas das minhocas. Os ácaros vermelhos sugam sangue ou fluido corporal dos vermes, incluindo o dos casulos.
A melhor forma de prevenção dos ácaros vermelhos é garantir que o pH permaneça neutro ou acima. Isso pode ser feito mantendo os níveis de humidade abaixo de 85 % e adicionando carbonato de cálcio, conforme necessário.
Sour crop
A doença “sour crop”, também designada envenenamento por proteína é o resultado de muita proteína na cama ou substrato. Isso ocorre quando as minhocas são super alimentadas. À medida que a proteína se decompõe, acumula-se na cama e produz ácidos e gases.
Os sinais da doença “sour crop” são notados quando uma minhoca apresenta nós ao longo do corpo, um clitelo inchado, rasteja sem direcção em cima da cama, tem cor branca e em seguida morre. Uma das formas de prevenção da “sour crop” consiste em evitar a super alimentação, assegurar uma monitoria permanente e manter o pH neutro ou acima.
Sanguessugas
A sanguessuga é um anelídeo que vive em ambientes semelhantes aos da minhoca e, apesar da sua semelhança com a minhoca, a sua identificação é fácil, pois possui uma ventosa na parte posterior do corpo. No caso de infestação, a sua separação é feita por meio de catação manual e posterior eliminação pelo fogo. A forma de prevenção contra a sanguessuga consiste na redução da humidade, aplicação de uma camada de cinza e calcário no fundo da cama, no momento do seu enchimento.
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Armazenamento
Antes de armazenar o vermicomposto, este deve ser peneirado a fim de eliminar torrões, restos de palha e outras impurezas. Os torrões separados devem ser triturados e peneirados novamente. Após a sua produção, o vermicomposto pode ser armazenado em granel, num local coberto, escuro, ventilado protegido contra a luz solar e contra a chuva. A humidade do vermicomposto deve estar entre 35 a 40 %, podendo aí permanecer por um período de seis meses.
Comercialização
Para efeitos de venda, o vermicomposto deve ser comercializado em sacos plásticos de dois, quatro ou dez quilogramas. Quantidades maiores são comercializadas em sacos de vinte e cinquenta quilogramas. A humidade do vermicomposto deve ser mantida a 40%. Recomenda-se fazer análises químicas do vermicomposto em laboratórios apropriados e indicar na respectiva embalagem os valores de pH, humidade, nutrientes, matéria orgânica e a dosagem para diferentes culturas.
Aplicação do Vermicomposto
O vermicomposto pode ser aplicado como adubo orgânico em todas as culturas agrícolas. Entretanto, as doses para a sua correcta utilização em cada cultura são ainda objecto de estudos em Moçambique. Sabe-se que a sua aplicação, mesmo em doses elevadas não causa danos às culturas/plantas nem ao solo, sendo que a administração em doses certas oferece maior economia e eficiência no seu uso. Por exemplo, os primeiros ensaios realizados no Pólo de Investigação e Transferência de Tecnologias de Mandlakazi, demonstraram que a aplicação do vermicomposto resultou num maior diâmetro do bolbo da cebola, quando comparado com a aplicação de estrume de gado bovino No Pólo de Manica, um estudo comparativo entre três amostras do vermicomposto e uma de solo sem aplicação do vermicomposto, demonstrou uma maior concentração de nutrientes essenciais ao desenvolvimento das plantas. Estudos realizados na Índia envolvendo a cultura de Feijão Nhemba (Vigna Unguiculata), concluíram que o teor de matéria seca e fresca foi maior em solos tratados com vermicomposto que aqueles tratados com pasta bio digerida. Noutro estudo, com a cultura do tomate, demonstrou-se que a aplicação do vermicomposto aumenta significativamente o rendimento desta cultura.
De acordo com o estudo realizado por Karmegam & Alagumalai, a aplicação do vermicomposto proporciona uma maior germinação de sementes. No do Feijão Jugo (Vigna Radiata) verificou- se um nível de 93% de germinação em campos adubados com vermicomposto e 84% em campos não adubados. Além disso, o crescimento e o rendimento do Feijão Jugo também foram significativamente maiores com a aplicação do vermicomposto.
Da mesma forma, em outro experimento de vaso, os rendimentos de matéria fresca e seca de Feijão Nhemba foram maiores quando o solo foi corrigido com vermicomposto do que com estrume bio digerido.
Doses e formas de Aplicação do Vermicomposto
As doses do vermicomposto a serem aplicadas em cada cultura ainda são objecto de estudos. Quanto às formas de aplicação, o vermicomposto pode ser aplicado da seguinte forma:
- A lanço ou cobertura: com a mão ou com máquina de espalhar estrume em toda a área;
- Em faixas ou sulcos: somente na faixa ou sulco de plantio;
- No berço (covacho): na projecção da copa de árvores, cobertura para mudas e árvores (fruteiras, ornamentais, nativas) ; e
- Em vasos: misturado com a terra. Também pode ser aplicado na forma de bio fertilizante, que é um adubo orgânico líquido utilizado para complementar a adubação. Conforme demonstrado ao longo deste Manual, o vermicomposto, produto final de um processo de vermicompostagem bem sucedido, é um excelente adubo orgânico para o uso agrícola na produção de alimentos, flores, plantas (ornamentais aromáticas e medicinais), temperos, mudas, etc. Pode ser utilizado em jardins, hortas, pastagens e, ainda, para a recuperação de áreas degradadas. Mesmo produzido em pequena escala, o vermicomposto possui diversos atributos para a recuperação da vida no solo, por disponibilizar nutrientes a longo prazo e elevar a qualidade nutricional das plantas que, por receber o vermicomposto, se tornam, frequentemente, uma alternativa muito mais saudável se comparadas a opções industrializadas disponíveis no mercado.
A tecnologia de vermicompostagem tem várias aplicações e adapta-se facilmente ao meio rural e ao meio urbano, tendo dupla função: produção do vermicomposto e produção de minhocas. A comercialização de ambos produtos pode complementar a renda familiar e contribuir para a reciclagem de resíduos orgânicos que poluem o ambiente.
FONTE: Manual Sobre Produção e Uso de Vermicomposto